Contemplando O Arco-íris Ou A Solidão Compungida Da Cidade Grande

Arco-íris sobre o campoFortaleza amanheceu — como só o cearense ousa dizer — com um dia bonito, gris, cinzento, entremeado com alguns raios de sol; um pouco de atribulação para os que se dirigem ao seu ganha-pão, mormente aqueles que pegam o condução, mas um momento de raras endorreminiscências para os que, por qualquer motivo, podem se dar ao luxo de postergar sua saída do leito e se refestelar com o tempo agradável.

No caminho, já a bordo do ônibus que serve ao meu órgão público, donde, malgrado more a meros três quilômetros, mercê do traçado da minha rota, leva-se próximo de uma hora para cumprir o trajeto, pude me dar ao luxo de observar que se formara um majestoso, imponente, vibrante arco-íris!

Minha colega de rota (e vizinha, mesmo condomínio), percebi, não estaria ciente de tão bela imagem, avisei-lhe, incontinente e incontinenti. Sem querer, mesmo falando em um volume de voz aceitável, percebo ora que outras pessoas ouviram o meu alarde e começaram a apreciar e a comentar a beleza do nosso fenômeno cromatográfico-meteorológico. Puxa. Que bela sensação. Consegui, mesmo sem ser esta a intenção, despertar outras pessoas para aquele momento mágico, naquela pequena janela de tempo.
Mas o que me intrigou (quiçá, também ao leitor) não foi só a beleza nem mesmo a peculiaridade do momento. Foi, isto sim, pensar o quanto a vida moderna, nas cidades grandes, nos tira estas faculdades, nos constrange a vivermos em função do trabalho, como se este fosse a [própria] vida, não só parte, mesmo importante, desta. Não é só uma questão profissional. O homem das cidades pequenas, cidadelas, vilas, tem o direito de acordar um pouco mais cedo, não para não perder a hora da labuta, mas para poder contemplar as coisas simples, recônditas, vilipendiadas pela explosão demográfica, pela busca capitalista pelo acúmulo insano, pelo mais e mais, mas que, pasme-se, continuam belas e contemplativas.

Lembrei-me da minha infância em Itapipoca, banhos de açude, de chuva, nas calhas, nos casarões, sem esquecer os indefectíveis olhares de soslaio dos seus senhorios, como a dizer:
Fora!!! Esta calha é minha!, o que não nos impedia de fingir se ir e retornar, quando o vigilante da calha não mais estivesse!
Tomar banho ao relento, furtar frutas. Observar pássaros. Olhar desenhos aleatórios de nuvens!
Lembrei que costumava desfrutar do arco-íris com outro olhar, menos circunspecto, menos afeito à lógica fria do croma, das temperaturas de cor, da refração, da decomposição da luz; enfim, o filtro era outro, mas nem por isso deixei de me enternecer pela beleza deste raro momento. Meu dia ficou ainda mais belo!

Impossível fazer esta egologia sem evocar os Titãs e a sua belíssima música: Epitáfio. A letra diz tudo. Viva mais. Usufrua. Permita-se. Contemple a vida. Enquanto é possível.

Créditos da imagem: Arco-íris sobre o campo. Fonte: Cultura Mix

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