Sobrevivendo Ao Ódio Na Net, Sem Odiar, Também

Ou: Virando O Jogo Com As Armas Do Inimigo

CerejeiraCom o passar do tempo, percebe-se que a Internet, depois do advento das Redes Sociais, não é mais tão-somente a velha W³ acadêmica, ascética, espartana, às vezes, até ríspida, para quem não é versado nos seus mecanismos de funcionamento, como Serviços, Linguagens, Protocolos, etc.
Para os usuários atuais, pouco afeitos a regras de comunicação, Netqueta ou similares, o ambiente virtual se lhes aparenta como um local onde podem ser “eles mesmos”, despidos de regras de convivência do cartesiano mundo real.

É aí onde começa a confusão. Não é o paraíso sobre a terra. Não é o néctar virtual. É um ambiente monitorado, para o bem e para o mal. Tudo que se fala, posta e se discute nas mídias digitais pode ser recobrado e utilizado para fins diversos daqueles que o internauta desavisado pensara. E o monitoramento não se dá em escala e dimensão pessoais, como se poderia pensar; não. O monitoramento é mundial e os resultados são desastrosos, sem prejuízo da eventual bisbilhotagem em escala menor.
Foi para isso que elas foram feitas; não foi para o José postar como Andreolli e esculhambar com o prefeito, mesmo que isso comumente aconteça.
As Redes Sociais são mecanismos de controle social. E como são eficazes…
Umberto Eco ( 5 de janeiro de 1932 — 19 de fevereiro de 2016) um dos filólogos mais engajados no estudo do fenômeno das Redes Sociais, dizia que:

As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade

Por causa deste empoderamento é que é impossível, hoje em dia, ler um texto sobre Encelado e seus gêiseres sulfurosos sem ver, na seção de comentários, alguém atribuindo a altura dos jatos a algum partido político, normalmente de esquerda; só há um jeito de evitar ler um monte de sandices inenarráveis: pule a seção citada…

Recentemente, no Brasil e em outras partes do mundo, onde estão “promovendo democracias”, é quase insuportável o clima atrabiliário dos postantes alegadamente anônimos.
Aqui e noutras praças, não é incomum a apologia ao crime, o engajamento de pessoas que se utilizam de Instituições públicas para fazer política (mesmo negando-a, dentro da dialética da ação e negação) e nem mesmo médicos postando procedimentos tanatológicos (Sic!).

Alguns dos postantes acabaram e acabarão tendo problemas com a justiça e com suas próprias categorias: nada do que se escreve, na Net, fica privado. Este é um erro crasso que cometem alguns sociopatas. Eles se escondem num cobertor que está mais para tábua de pirulito. Não há garantias, num ambiente sempre monitorado.

Marisa Letícia e LulaMas a pergunta é: como se proteger deste ódio fundamentalista na Net? Tem como?
A resposta é sim. E o truque é velhíssimo, mas funciona: não responda! Na W³ clássica, esta onde conversamos ora, existia e existe um elemento fuleiragem sem futuro, vulgo cão das costas ocas e que atende pelo famoso nome de Troll. Este elemento mal-fazejo só tem um intuito: gerar flames Evite-os. O que são “Flames”? São discussões, no sentido pejorativo do termo, que às vezes nascem de uma simples discussão, no sentido puro, sobre um tópico abordado, levando as pessoas a empreenderem verdadeira “batalha campal”, prejudicando a discussão propriamente dita, deixando-a em plano inferior. Os “flamers” ou “trollrers” são pessoas que passam a se tornar conhecidas nas rodas de discussões, não por agregar à discussão, e sim pelo diversionismo; a melhor forma de tratar com estes tipos é ignorá-lo, encerrando o bate-boca. É como matar um tumor de inanição. Sem alguém para discutir, no sentido ruim da palavra, ele cai fora; ele e “sua razão de ser”.
No caso das Redes Sociais, onde o ódio é um mecanismo político, mais importante ainda evitar, ignorar.
Recentemente, com a morte de Marisa Letícia, ex-Primeira Dama e esposa de Lula, o ódio, tivera uma escala para medi-lo, esta teria transbordado, estourado, tão grande a enxurrada de baixarias que se podia ler.

Alguns Grupos de discussão reagiram pronta e corretamente, não só não replicando a onda odiosa como trazendo, como verdadeiro antídoto, postagens de flores. Sim, flores. Flores, música, textos contemplativos, o que for. Para vampiros, alho, já dizia a música.

Se a televisão, uma das máquinas de gerar faFlores do Camposcistinhas e fascistões, está a todo vapor, vamos utilizar a Net. Contra ela a tevê não pode. A juventude prefere os meios mais modernos, pelo poder de interação e pelo empoderamento deles. Tiremos proveito disso. Criemos Grupos de Discussão de assuntos importantes. Filosofia, Antropologia, Psicologia, Protocolos de Rede, Aviônica, Criação de Alevinos, etc. Divulguemos. Busquemos adeptos de bom estudo. Vamos utilizar as vantagens das Redes Sociais a nosso favor. Não vamos atrás dos que veem tevê, os que ainda assistem aos programas “espremeu, sai sangue” nem dos que se tornaram reféns do “domingão” e seus clones. Estes já estão abduzidos.

O nosso foco é quem ainda pode participar de uma discussão sadia. É possível utilizar a Net para discussão saudável. Mesmo que estejamos sempre com aquela sensação de estar sendo seguido (e estamos…).

diga não ao ódio. Diga sim ao conteúdo.
Margaridas

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Redução Da Maioridade Penal É Fascismo

Imagem Globo, Mãe (Bessinha
Por Sergio Graziano, publicado originalmente no seu blogue e no Conversa Afiada. Ilustração: Bessinha (CAf).

Escrevo este pequeno texto para expor uma ideia que produz certa angústia em mim. Tentarei fazer uma leitura diferenciada do problema da redução da maioridade penal. Serei breve, muito embora saiba que o tema merece maior profundidade. Aliás, esta dúvida veio à tona, mais uma vez, ao ler o texto “Introdução à vida não fascista”, no qual Foucault faz a introdução da obra “O Anti Édipo”, de Deleuze e Guattari.

A análise que faço aqui e, de certa forma, chamo os leitores a percorrer comigo, é sobre o fascista que habita cada um de nós ao debater a responsabilidade penal.
Penso que o debate está tomando rumos distorcidos, em especial porque parece que ele foi ideologicamente capturado e, em certa medida, há um discurso subliminar de necessidade de alterar a legislação – custe o que custar – para moralizar os padrões de sociabilidade.

Significa dizer: os favoráveis à dignidade e aos bons costumes são também favoráveis à redução da idade de responsabilização penal e, ao contrário, os que defendem a manutenção dos limites atuais são destituídos de razão e, consequentemente, são favoráveis à impunidade.

Seria o mesmo que dizer: se você vai às manifestações contra o Governo Federal você é contra a corrupção e, se não for, você é favorável à impunidade e à corrupção.

É um debate maniqueísta em que interagem escolhas definidas como bons e maus, preto e branco, pobres e ricos, corruptos e não corruptos!

É um jogo paranóico.

Seria o caso, dentro da hipótese levantada por Foucault, do cultivo e da revelação do fascista que habita dentro de nós, isto é, o prazer de ver a exclusão do outro, de limpar a sociedade e purificá-la dos males produzidos por pessoas que cometem delitos.

É, fundamentalmente, a desintegração e eliminação dos diferentes. Seja ele quem for!!!

O importante, para este tipo de pensamento fascista, é o significado político da defesa da moralidade e, o que é pior, a partir de um referencial difícil de deglutir: a exclusão do outro.

Importante pensar que esta exclusão está condicionada a partir de padrões morais determinados pela sociedade de consumo, a qual, por si só, já produz a exclusão, a estigmatização e as guetificações.

O massacre das diferenças é o berço das fobias sociais como a xenofobia ou a homofobia. É a libertação do fascista que há dentro de nós, em especial quando se insuflam as massas.

O mesmo dissabor fascista atinge o debate sobre a redução da idade à responsabilização penal. O debate torna-se absolutamente estéril, pois as soluções apresentadas são idênticas àquelas que tipificaram os crimes hediondos ou que aumentaram as penas nos crimes relacionados com o tráfico de drogas, pois produziram mais encarceramento sem resolver os problemas, tanto dos crimes violentos como do consumo de drogas ilícitas.

Sob o império da Lei, a fobia agora é punir cada vez mais e melhor.

Qual será o limite?

É possível (há espaço) para pensar diferente? Acredito que sim.

A discussão sobre a redução da idade penal deve, necessariamente, passar pela alteração do modelo de gestão da Segurança Pública.

Não há qualquer relação sociológica, filosófica, antropológica, jurídica (ou qualquer relação que possamos imaginar) entre o aumento do rigor da legislação penal e a diminuição da violência ou a redução da criminalidade.

Simples assim: não há.

Essa situação esconde outra realidade importante, justamente aquela que não se quer mexer: a Segurança Pública.

É preciso, de uma vez por todas, olhar o problema de frente. Para onde ir com a alteração legislativa? Porque reduzir a idade para responsabilizar penalmente crianças e adolescentes?

Você já se fez essa pergunta?

Com convicção, explique o motivo pelo qual você defende a redução da idade para responsabilizar crianças e adolescentes.

O debate deve, necessariamente, transitar por um novo modelo de Segurança Pública, a partir de políticas públicas preventivas e inclusivas, em especial à juventude, por meio de uma profunda alteração nas estruturas das polícias, como a desmilitarização, o ciclo completo de policiamento, a entrada única e os planos de carreira e de salários, valorizando e qualificando seus quadros e, fundamentalmente, com a promoção e implantação de pesquisas acadêmicas para monitorar e avaliar as políticas públicas de segurança introduzidas.

É urgente repensar a necessária alteração das políticas de drogas no país, como único mecanismo para reduzir, a curto prazo, a população carcerária no Brasil.

Assim, é importante entender que o debate sobre a redução da idade para responsabilização penal, da forma como está proposto, sem enfrentar os verdadeiros problemas é, ao fim e ao cabo, manter tudo como está, no esplendor das análises autoritárias, despertando, tão somente, a normalidade do fascismo.”.

Sergio Graziano é Doutor em Direito pela PUC/RJ, advogado criminalista em Santa Catarina e Professor do Programa de Pós Graduação em Direito da Universidade de Caxias do Sul (RS).