Jornadas nas Estrelas e o Futuro Imperfeito

Nave Enterprise Original - DivulgaçãoJornadas nas Estrelas, o seriado que encantou, desde a década de 1960, até os dias atuais, toda uma geração de fãs (não, não se refere aos Trekkers; eu disse fãs, sem o ‘nático’.) inovou em tudo, ou quase. Foi a primeira série a apresentar, principalmente para a sociedade estadunidense, reconhecidamente refratária, a possibilidade de coexistência de pessoas, humanas ou não, e até de haver interação e romance entre estas. Foi a primeira vez, por exemplo, que um homem australoide beijou uma mulher afrodescendente, clara e ostensivamente (a tevê estadunidense já havia ensaiado esta ousada cena, com  a desculpa de esbarros, para não irritar os sulistas, reconhecidamente etnicistas) no episódio Plato´s Stepchildren (Enteados de Platão, literalmente) entre o Capitão James T. Kirk e a Tenente Nyota Uhura.

Jornadas inovou em quase tudo, reitere-se. Para início de conversa, deixou Malthus falando sozinho, ao resolver o problema alimentar, pelo menos na Enterprise e onde a Federação aparecesse. Nada que as pesquisas em agrobiologia não já o fizessem, mas os sintetizadores de alimentos da Enterprise resolviam também o problema da limpeza e da reciclagem dos utensílios. O melhor de dois ou mais mundos, não?
Inovou na medicina, na tecnologia em rádio-transmissão (os comunicadores, mesmo os trambolhos da série original, são o protótipo do sistema de codificação do celular de Hedy Lamarr e dos nossos, claro).

Uma das maiores abordagens utópicas de Jornadas talvez venha a ser a possibilidade de haver paz e colaboração entre raças, não restringindo mais o problema da intolerância à espécie humana. Vulcanos, klingons, cardassianos, romulanos, vidianos, ferengui, talaxianos, todos, um a um, acabariam por se filiar à Federação dos Planetas Unidos (uma versão bem abrangente, ecumênica, sincrética, até, da Organização das Nações Unidas — se só há uma raça, aqui, a humana, então, a Federação haveria de comportar as outras espécies inteligentes dos Universos. Um bom recado aos intolerantes humanos contemporâneos). No caso dos vulcanos, malgrado seu passado violento, a aliança com a Federação pareceu mais natural, apesar disto, mas, no caso dos klingons, eles só se aliaram à Federação após ter, em um dos filmes da franquia, seu mundo iminentemente destruído, caso não recorressem à aliança; de qualquer modo, é pouco crível que uma raça beligerante e de hierarquia vertical, os klingons, consiga construir naves espaciais. É uma licença poética da franquia, sem dúvida.
Registre-se o fato de ser a Capitã[o] Janeway a primeira mulher a comandar uma nave. Há mulheres em altos postos na Federação, humanas ou não. Mas só em Jornadas nas Estrelas – Voyager, há uma capitã.

A série e os filmes da franquia pouco a pouco foram deixando ‘recados’ para as suas diversas gerações. Estes falam em tolerância, paz, avidez por descobertas, divulgação, tendo sempre como foco a Primeira Diretriz, que parece ser o mais próximo do conceito da autodeterminação das raças.

Mas há um aspecto na franquia que causa questionamentos: existe um irrecorrível apelo marcial, apesar das mensagens subliminares de paz e de congraçamento entre raças de todos os universos. Há muito símbolos náuticos na série, bem mais do que aquela saudação fúnebre, sempre que um corpo é ejetado da nave, e em toda a franquia, até aqui, mas não se discuta isso. Mais e além.
Para uma franquia que sobrepujou o preconceito étnico, pregou a paz universal, erradicou a cobiça, o dinheiro, o comércio como simplesmente fonte de lucros (a Federação comercia, mas, nota-se, claramente, numa abordagem de intercâmbio cultural, exceto, por eles claro, com os Ferengui), faz alianças com raças extremamente belicosas, como os hyrogens, ou os romulanos, etc., a inexpugnável tutela militar parece incoerente e muito mal explicada. Seria esta a verdadeira distopia conceitual de Jornadas, nosso futuro imperfeito? A Federação não encontrou meios de organização civis, só há a saída pela via militar? Todas as raças elencadas, durante toda a marca Jornadas, parecem ter a tutela militar como forma irrecorrível de organização.

Seria intencional, esta “marciogonia”, seria fruto da inspiração de seus roteiristas, medo de propor temas espinhosos, como a verdadeira democracia, sem protetores e sem salvadores, de propor um “indo além”, no caso, uma sociedade anárquica, autorregulada, por estarem inseridos numa sociedade, como a estadunidense, refratária a qualquer ideia que possa redundar em comunismo, em superação de Governos e de tutores?

São muitas perguntas. Nenhuma resposta, por ora. E o leitor, o que pensa? Param aí, as inovações de Jornadas nas Estrelas? Ou Mad Max, Ellysium e outros distópicos têm razão, o futuro é sombrio, ou seja, só nos resta sermos tutelados ou rebelados? Gostaria de ouvir o que você pensa, sobre isso.

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12 comentários sobre “Jornadas nas Estrelas e o Futuro Imperfeito

  1. Muito bom o post!! Sim, Jornada nas Estrelas foi inovadora, mas imperfeita. As naves são todas comandadas como navios britânicos do século 17.
    Um detalhe é que estudos recentes mostram que, ao contrário da Armada da Rainha, os piratas tinham uma hierarquia bem mais democrática, e muitas decisões nos navios piratas eram tomadas por votação. Então, há alternativa, sim, para a hierarquia autoritária das naves da Federação. Mas talvez não isso seja do agrado de hollywood…

    1. Roberto Locatelli (13 de junho de 2016 às 15:33):

      Muito bom o post!! Sim, Jornada nas Estrelas foi inovadora, mas imperfeita. As naves são todas comandadas como navios britânicos do século 17.
      Um detalhe é que estudos recentes mostram que, ao contrário da Armada da Rainha, os piratas tinham uma hierarquia bem mais democrática, e muitas decisões nos navios piratas eram tomadas por votação. Então, há alternativa, sim, para a hierarquia autoritária das naves da Federação. Mas talvez não isso seja do agrado de hollywood…

      Obrigado. Boa tarde. Locatelli, o que parece é que realmente a trava era a indústria e seus interesses. Os atores e diretores pareciam ter uma visão mais libertária a ser propalada pela franquia. O próprio Roddenbery dizia isso, nas entrelinhas.
      É minha série favorita, ao lado de Doctor Who, não só pelas inovações mas também por discutir o nosso destino.

  2. Morvam interessante essa visão! Fiquei pensando naqueles todos seriados ingênuos dos anos sessenta: Viagem ao fundo do mar (aparelho de guerra); Tunel do tempo (experiencia militar secreta); Jeanne é um gênio (estranhamente Aladin é substituido por um oficial da aeronáutica); fora as inúmeras vezes em que os militares americanos nos salvam de alienígenas em hollywood!

    1. Boa tarde.

      revenger (21 de setembro de 2015 às 16:14):

      “… Fiquei pensando naqueles todos seriados ingênuos dos anos sessenta: Viagem ao fundo do mar (aparelho de guerra); Tunel do tempo (experiencia militar secreta); Jeanne é um gênio (estranhamente Aladin é substituido por um oficial da aeronáutica); fora as inúmeras vezes em que os militares americanos nos salvam de alienígenas em hollywood!”.

      Bem-vindo, Revenger. É; eles têm uma mensagem subliminar, de muito afinco, recheada de quixotismo, messianismo. E eu vivo a perguntar: “quem nos salva dos nossos ‘salvadores’?”.

      Saudações “O Pré-Sal É Do Povo Brasileiro; vamos Enfrentar Os Golpistas E Defender A PetroBrás; vamos denunciar seus métodos sorrateiros. O povo brasileiro é justo e saberá repudiá-los“,
      Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

  3. Oi Morvan,
    A nave espaial Enterprise é antes de qualquer outra coisa, uma nau. E como tal, para que funcione adequadamente, tem que ter um Capitão. Impossivel um comando colegiado para um navio, avião ou qualquer outro tipo de embarcação.
    De minha parte, eu sempre vi na série preocupações e similaridades com o socialismo real.
    O fato de aceitar os diferentes alienígenas evidencia o anti racismo.
    Especial é o fato de não haver dinheiro e a falta de preocupação com a acumulação de bens materiais. Sempre me pareceu que todos trabalhavam pelo bem comum, dentro de uma sociedade com poucos graus de hierarquia.
    Seria isso comunismo?
    De toda forma, Gene Roddemberry estava anos luz à frente do seu tempo, motivo pelo qual a série original inspirou várias outras.

    1. Boa noite.

      emerson57 (20 de setembro de 2015 às 18:46):

      “… Sempre me pareceu que todos trabalhavam pelo bem comum, dentro de uma sociedade com poucos graus de hierarquia.
      Seria isso comunismo?…”.

      Hermano hariováldico Emerson57, no sentido lato, sim. Mas não a rigor, porque, neste estágio evolutivo, não haveria mais Governo (não confundir com anarquismo), ou seja, um estado de consciência plena, onde o homem viveria sem qualquer e toda forma de exploração do outro. O problema que evoco em Jornadas, mesmo considerando o gênio de Roddenbery, é a marcialidade, a tutela social sobre a humanidade. O que você faz relevo, um Gene à frente do seu tempo, reforça ainda mais a ideia de que eles foram “convencidos” a pegar leve nos temas, além do sutil beijo do Shatner na Nichelle Nichols.

      Saudações “O Pré-Sal É Do Povo Brasileiro; vamos Enfrentar Os Golpistas E Defender A PetroBrás; vamos denunciar seus métodos sorrateiros. O povo brasileiro é justo e saberá repudiá-los“,
      Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

  4. Querido Morvan. Acompanhei alguns capítulos da série e fui um admirador do orelhudo que não tinha emoções (a não ser quando entrava no cio). Como tudo se insere nos costumes em que vivemos, seria impossível a série tratar de um poderio que não o militar para obter coesão. Na época em que a série foi feita, o sistema de poder dos EUA já era dominado pelo complexo industrial militar. Tanto que na rua em que eu morei (Petropólis, no bairro do Sumaré) havia um homem bem apessoado cujo filho era meu amigo. Numa manhã qualquer, passou em frente à casa do homem um fusquinha e o metralhou. Eu com meus 15 anos fiquei atônito. Quis entender o por que? Daí recolhi um panfleto (o fusquinha entupiu a pracinha da rua com folhetos mostrando o rosto do bem apessoado sujeito, encimado com os seguintes dizeres: “Capitão Chandler, agente da CIA, justiçado hoje pelos crimes de guerra cometidos no Vietnam”. Comecei a entender mais (sem dispensar a poesia) das jornadas da nossa vida, sem deixar de olhar as estrelas…

    1. Bom dia.

      Hamilton Damato (17 de setembro de 2015 às 10:11):

      “Querido Morvan. Acompanhei alguns capítulos da série e fui um admirador do orelhudo que não tinha emoções (a não ser quando entrava no cio). Como tudo se insere nos costumes em que vivemos, seria impossível a série tratar de um poderio que não o militar para obter coesão. Na época em que a série foi feita, o sistema de poder dos EUA já era dominado pelo complexo industrial militar…”.

      Caro Hamilton Damato, considerei tudo isso, contextualmente, mas ainda me arranha o fato de esta série, tendo sido tão protagonizadora na proposição de novos moldes, costumes e “mores” não ter tido sequer elucubrado, sutil que fosse, um regime menos belicista e menos conspiratório, como subproduto, até. Para mim, eles foram “enquadrados”. Mas que causa espécie, ah, causa.

      Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

  5. Acho que os criadores dessa Série deram sorte quanto ao ano, década de criação. Onde o politicamente correto não era tão exagerado. Havia uma maior liberdade por lá que depois do 11 de Setembro parecem que foram cerceados.

    Eu gostava de assistir e sem ter ficado fã-nática 😀

    E Morvan, querendo compartilhar eu levo 🙂

    1. Boa tarde.

      Valéria Miguez (LELLA) (16 de setembro de 2015 às 12:48):

      “Acho que os criadores dessa Série deram sorte quanto ao ano, década de criação. Onde o politicamente correto não era tão exagerado. Havia uma maior liberdade por lá que depois do 11 de Setembro parecem que foram cerceados.
      Eu gostava de assistir e sem ter ficado fã-nática 😀
      E Morvan, querendo compartilhar eu levo 🙂 “.

      Valleria Miguez, eu também não cheguei ao “nático”, mas sou seguidor de toda a franquia. Sempre olhei de lupa este aspecto do protagonismo da série, com relação aos costumes. Quanto a compartilhar, não há o menor problema. Pelo contrário. Uma honra.

      Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

  6. Você levantou um ponto interessante sobre o qual, mesmo sendo fã da franquia, eu nunca havia pensado. Não sei se consigo imaginar uma alternativa à organização militar da Frota Estelar. Talvez pudéssemos excusar a “gafe” dos criadores (uma vez que não creio que tenha sido intencional, prevendo um futuro bélico) em algum tipo de contexto histórico dentro da série. Afinal, a Frota Estelar é uma instituição terráquea que pré-data a inclusão da Terra na Federação dos Planetas Unidos. Mas, após ler seu post, concordo com a ideia de que uma civilização capaz de erradicar a violência, a fome e o sistema monetário certamente seria capaz de pensar em uma estrutura menos marcial.

    Apesar das inovações trazidas que, pra mim, culminam na ideologia humanista secular por trás da criação da série, este tipo de descuido é comum.

    Um exemplo é a questão da inserção das mulheres no seriado. Por um lado, apresenta-se a ideia de igualdade entre os gêneros. Mulheres pretendem a cargos de comando tanto quanto os homens. A capitã da Enterprise-C era uma mulher. Temos na “Nova Geração” a participação de várias almirantes mulheres (como a anti-heroína Almirante Nechayev). Porém, são aparições esparsas, pró-forma… Sabe-se que, na verdade, Gene Roddenberry demitiu a atriz Gates McFadden (Doutora Crusher) pela pressão que a mesma fazia por equidade através de suas sugestões de roteiro. Somente em “Voyager”, após a morte do criador original, pudemos realmente acompanhar uma personagem feminina em posição de comando. E ainda assim, apesar de “Voyager” ter sido o seriado mais feminista da televisão até “Orange Is The New Black” (na minha opinião), não escapamos do cliché da loira de atributos físicos avantajados usando uniforme colado. Gafe. Descuido. Retrocesso não condizente com a ideologia nem com o futuro apresentado pela série.

    Então, apesar das premissas de paz, igualdade, tolerância e epistemologia, Jornada nas Estrelas não deixa de refletir não um futuro ideal, mas a época de sua criação. Da mesma forma que não se dispuseram a advogar uma verdadeira democracia no período da Guerra Fria do século passado, não se dispuseram, por serem reféns da audiência do que imaginavam ser seu público-alvo, a advogar a verdadeira igualdade de gênero neste século.

    http://avidaemmarte.wordpress.com

    1. Boa tarde.

      thais (16 de setembro de 2015 às 12:02):

      “… Não sei se consigo imaginar uma alternativa à organização militar da Frota Estelar… concordo com a ideia de que uma civilização capaz de erradicar a violência, a fome e o sistema monetário certamente seria capaz de pensar em uma estrutura menos marcial…
      Vida Em Marte“.

      Thais, bem-vinda. Visitei o Vida e achei belo. Visitarei mais vezes, claro. Muito importantes os aspectos que você pondera.
      Roteiristas tiveram um trabalho hercúleo para propor temas delicados, como afeição entre raças (e entre etnias, no caso humano). Parece ter sido tipicamente a la Jack: “Vamos por partes“. A propósito, a gentilíssima (também na vida real) Beverly Crusher teve que ser readmitida, pois o elenco não suportava mais a atriz (no papel e na vida real) que a sucedera, enquanto esta assumia funções na Frota.

      Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

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